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O intelectual na História: uma abordagem sobre o ISEB

 

Fabrício Augusto Souza Gomes

 

Mestre em História. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO (Brasil)

 

Abstract:This study is related to the Political History in Brazil. This research’s approach is to present the economic, politics and social aspects in Brazil, during the period of 1955 to 1964, and its respectives influences to the national development, in accordance with ISEB’s (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) point of view. This job also shows the importance of ISEB in the process of projecting objectives, goals and ways to Brazil industrializationand developing.

Keywords: National-Development, Intellectual, Institution

 

 

“É chegada, afinal, para esta história das paixões francesas que é a história política dos intelectuais, a hora da História, com esta maiúscula que convém a toda atividade de pesquisa que possui status científico reconhecido.”[1]

 

Em 14 de julho de 1955, em pleno governo de João Café Filho, era criado o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), uma instituição ligada ao Ministério da Educação (MEC). O ISEB, no entanto, não fora concebido de uma hora para outra, sendo parte de um projeto existente desde 1949, postergado em 1954, com o suicídio de Vargas, e que finalmente tornou-se realidade no ano seguinte: ser um centro de altos estudos pós-universitários, que pretendia formar uma elite civil-militar disposta a difundir a ideologia do nacional desenvolvimentismo, formulada por seus intelectuais, no Brasil. Uma ambição já tentada alguns anos antes, desde 1949, passando por outras instituições criadas com o mesmo propósito, como o Grupo de Itatiaia, em 1952, e o Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP), em 1953. O referencial do ISEB eram o College de France  e o Colegio de Mexico.

Uma das principais características do ISEB foi a pluralidade de origens e formações intelectuais de seus integrantes, oriundos de distintas áreas e campos do saber: filósofos, sociólogos, advogados, médicos, católicos, ex-integralistas e marxistas integravam o instituto. Todos reunidos numa instituição que tinha o objetivo pensar os problemas do Brasil e a partir do diagnóstico, propor soluções. Inicialmente o ISEB manteve-se atrelado apenas ao campo teórico das idéias, mas com o delineamento dos
acontecimentos no final da década de 1950 e início dos anos 1960, o instituto, através da ação de seus intelectuais, passou à ação, oferecendo cursos e palestras a um público menos elitizado, como sindicalistas, estudantes universitários e oficiais militares menos  graduados, funcionando como uma espécie de agência de articulação política, com ideais nacionalistas, sendo inclusive confundido como uma instituição que atendia os interesses de Moscou. O ISEB enfrentou fortes campanhas anticomunistas, desenvolvidas nos principais periódicos brasileiros – campanhas financiadas por setores conservadores da sociedade, como empresários que tinham fortes interesses econômicos em jogo, e também militares simpáticos aos Estados Unidos da América, que prezavam muito a questão da hierarquia militar nos quartéis. Com o golpe-civil militar em abril de 1964, o ISEB foi uma das primeiras instituições a serem fechadas pelo governo e seu Inquérito Policial Militar (IPM) intimou cerca de 60 pessoas e três ex-presidentes da República. O IPM do ISEB resultou em 30 volumes, totalizando cerca de oito mil páginas com depoimentos, documentos apreendidos, livros, recortes de jornais, entre outras fontes. Os intelectuais que integraram o ISEB tiveram papel importante, sendo não somente percebidos sob o prisma de sua atuação no instituto. Dentro do ressurgimento da História Política, autores como René Rémond e Jean François Sirinelli abordaram tanto o estudo do Político, como os intelectuais propriamente ditos, entendidos como o “sub-objeto da história”[2]. O primeiro despertar sobre a importância dos intelectuais surgiu nos anos 1950, justamente no período do surgimento do ISEB, de seus intelectuais como atores políticos e não apenas participantes de um projeto acadêmico na conjuntura do nacional-desenvolvimentismo. O estudo dos intelectuais esteve, durante anos, restrito apenas às ciências sociais e ciências políticas, representando um contexto totalmente novo para historiadores, num novo campo de investigação, mas não apenas fechado com a história política. Como bem fez questão de lembrar Sirinelli,

“(...) a história dos intelectuais tornou-se assim, em poucos anos, um campo histórico autônomo que, longe de se fechar sobre si mesmo, é um campo aberto, situado no cruzamento das histórias política, social e cultural.”[3]

 

O termo “intelectual” é polissêmico, sendo capaz de fomentar diferentes representações sobre o mesmo. Um intelectual é dotado de duas características: uma mais ampla, do intelectual visto como mediador cultural – abrindo-se aí para que qualquer pessoa que exerça uma função de disseminar cultura, informação e ideologia na sociedade seja entendida como tal -, e a noção de engajamento, com participação política mais ativa, sendo naturalmente influenciador. No caso dos intelectuais do ISEB, é possível perceber que essas duas características estão imbricadas, mesmo que em momentos distintos.

O ISEB fez parte de um conjunto de relações, imbricado no contexto da época e também inserido em violentas campanhas de mídia e inquietações nos quartéis. É importante também perceber que, embora o ISEB já tenha sido tema de diversos estudos – na antropologia, nas ciências sociais e na filosofia -, o olhar do historiador sobre o ISEB era praticamente inexistente. O mesmo pode-se afirmar com relação a seus intelectuais. A história política esteve, durante certo período, refém do ostracismo que tem grande parcela de culpa na inexistência da análise dos intelectuais no campo da história, já que qualquer tipo de abordagem neste sentido remetia inevitavelmente à história política. Durante muito tempo, estudar os intelectuais representava analisar um campo muito restrito de importância e tamanho, numa época em que a história cultural e a história econômica ganhavam mais destaque que o estudo do político, que não era dotado, segundo pensamentos da época, da cientificidade da história serial, por exemplo.

Destarte, algumas dificuldades apresentaram-se como obstáculo para o incentivo ao estudo dos intelectuais. Uma delas foi compreender que, sendo parte de uma elite ou grupo social reduzido a uma história factual, eles estavam inseridos num contexto de curta duração, onde se questionava até que ponto influenciariam o poder. Ora, o que foram os intelectuais do ISEB enquanto parte constituinte do aparelho de Estado? Intelectuais que vivenciaram oficialmente três governos democraticamente eleitos (Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart), que participaram ativamente do contexto político e buscavam formular uma ideologia do nacional-desenvolvimentismo? A ambição de se criar um instituto de altos estudos esteve sempre tramitando nos
gabinetes governamentais. O ISEB foi o resultado de uma idéia gestada e abraçada principalmente por elementos-chave do processo político. E principalmente, quando observamos a presença de intelectuais como Alberto Guerreiro Ramos, Rômulo de Almeida e Ignácio Rangel inseridos num corpus administrativo do governo de Vargas, trabalhando na assessoria econômica do mesmo, transitando – novamente – nas esferas do poder. Roland Corbisier, que fora diretor do ISEB, era amigo íntimo do presidente Juscelino Kubitschek, chegando a jantar praticamente os cinco dias da semana com JK.[4] Portanto, sendo atores políticos em um determinado período de nossa história, os intelectuais do ISEB influíram, de certo modo, nos acontecimentos que marcaram o fim dos anos 50 e parte da década seguinte.

Por isso, para se entender um novo olhar sobre o estudo dos intelectuais, o exemplo do ISEB e seus intelectuais é emblemático, justamente porque significa, primeiro, a retomada do estudo dos intelectuais, e segundo, a oportunidade que nós, historiadores, temos de lançar o entendimento acerca das atividades desta importante instituição que teve breve tempo de existência (apenas nove anos). O espectro de heterogeneidade encontrado na gênese do ISEB proporciona não somente o entendimento da instituição em si, mas também compreender o Brasil dos anos 1950 e 1960, tendo em vista que o ISEB vivenciou conflitos internos e externos, repercutindo os acontecimentos ocorridos na conjuntura nacional e internacional.

O ISEB teve uma trajetória curta, porém marcante. Seus nove anos de existência
suscitaram, porém, uma produção historiográfica que teve distintas abordagens, explorando as múltiplas facetas produzidas pelo instituto e por seus intelectuais. O espectro de heterogeneidade encontrado na gênese do ISEB proporciona não somente o entendimento da instituição em si, mas também compreender o Brasil dos anos 1950 e 1960, tendo em vista que o ISEB vivenciou conflitos internos e externos, repercutindo  os acontecimentos ocorridos na conjuntura nacional e internacional.

Desde os anos 1970 foram elaborados estudos sobre o ISEB. Trabalhos anteriores se propuseram a analisar o ISEB sob o ponto de vista das idéias, em especial sobre a ideologia do nacional-desenvolvimentismo, em nível mais teórico, ou então sesituaram no desafio de traçar uma história da instituição (incorrendo no desenvolvimento de uma cronologia dos eventos que levaram à criação do ISEB). Produções que tiveram o ISEB como tema central curiosamente são oriundas de pesquisadores de outras áreas das ciências humanas. Cientistas políticos, filósofos, cientistas sociais... onde se situam os historiadores, que ainda não produziram uma literatura sobre o ISEB? Sem dúvida, isso constitui um desafio ao historiador.  Diante da constatação de produções heterogêneas sobre este instituto, alguns trabalhos trazem não somente esclarecimentos, mas também despertaram questionamentos que serviram como incentivo a esta produção.

Em sua tese de doutorado em sociologia Nationalisme et action politique au Brésil: une etude sur l´ISEB [5]– defendida em 1975, em Paris, Alzira Alves de Abreu defende a idéia de que o surgimento do ISEB foi a confirmação de uma iniciativa que já se apontava nas décadas de 1940 e 1950, que foi a ascensão de uma intelectualidade brasileira nos centros de poder, com a proposta de influenciá-los na definição de uma política econômica voltada para o desenvolvimento. O ISEB foi o resultado de diversas iniciativas, de intelectuais que desejavam definir um projeto de desenvolvimento econômico, político e social. Sua tese de doutorado posteriormente originou dois trabalhos que estão baseados nos originais da tese.

A transição de uma sociedade tradicional, voltada para o campo e tendo na agricultura sua principal base de sustentáculo econômico, para uma sociedade urbana e industrial foi o mote que fez com que intelectuais surgissem com propostas visando orientar uma nova política de desenvolvimento. Segundo a autora, em sua tese de doutorado, o tipo de intelectual que participou do ISEB pode ser considerado como o pertencente a uma transição de uma sociedade agrária a uma sociedade moderna, industrial, que valorizava o uso da tecnologia e fazia uso do conhecimento especializado, como valores primordiais para sua formação intelectual. Alzira Alves de Abreu desenvolve um histórico do instituto, criado a partir do Grupo de Itatiaia, e que teve o Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP) como desdobramento até se transformar, em 1955, de fato, no ISEB. Nationalisme et action politique analisa o processo de criação do ISEB e fez uma reflexão sobre a ação política de seus intelectuais. A autora ressalta que o modelo referencial para a criação do instituto foi a Escola Superior de Guerra (ESG), um centro militar de altos estudos, criado alguns anos antes, em 1949, no Rio de Janeiro. O ISEB
seria um dos centros de elaboração da ideologia nacional-desenvolvimentista que marcou todo o processo político brasileiro, desde a morte de Vargas até o golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart, em 1964. Reforça ainda a idéia de que para conseguir êxito, o instituto alcançou a burocracia civil e militar através de cursos, conferências e publicações. Para isso, ela utilizou como fonte o Relatório Sucinto de Atividades do ISEB, para elencar as atividades do instituto.

Para Alzira Alves de Abreu, o ISEB, no entanto, não despertou interesse de grupos representativos no campo das ciências sociais, como por exemplo, a Universidade de São Paulo (USP) -, e a antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil – no Rio de Janeiro. Segundo ela, essas instituições “não reconheciam a legitimidade dos intelectuais do ISEB para exercer o papel de analistas e formuladores de soluções para a sociedade”.[6] E prossegue:

“Eles eram vistos como desprovidos de uma formação científica em sociologia, ciência política, economia, história ou antropologia.

Eram percebidos como intelectuais de formação jurídica e
bacharelesca, destituídos, portanto, de instrumentos teóricos e metodológicos indispensáveis para o exame científico da sociedade.”[7]

Helio Jaguaribe realmente era bacharel em Direito, Nelson Werneck Sodré era até então um coronel do Exército e Álvaro Vieira Pinto era filósofo, assim como Roland Corbisier – só para citarmos alguns dos mais importantes intelectuais do ISEB.

Outra crítica que o ISEB enfrentou no meio acadêmico e intelectual veio de intelectuais marxistas, como aqueles que se reuniam na Revista Brasiliense, de São Paulo: “a ação dos intelectuais isebianos foi percebida como prejudicial ao trabalho de divulgação do marxismo, já que a linguagem por eles utilizada era próxima do marxismo, mas seus trabalhos não eram identificados com essa ideologia”[8].

A autora ressalta ainda que o ISEB enfrentou resistência também de grupos universitários que associavam o ISEB ao Integralismo, em face de que alguns de seus intelectuais terem sido, no passado, militantes ou simpáticos à causa da Ação Integralista Brasileira (AIB) – Miguel Reale Jr e Roland Corbisier, por exemplo, foram simpatizantes da ideologia de Plínio Salgado. A própria opção em desenvolver sua tese de doutorado sobre o ISEB despertou críticas de seus colegas historiadores paulistas, que viam o tema como impróprio, a não ser que fosse elaborado um trabalho que
estivesse fundamentado na crítica ao pensamento do grupo[9].

Alzira Alves de Abreu destaca a pluralidade de idéias dos intelectuais do ISEB. A autora utiliza o conceito de “grupo de interesses”. Para ela, o instituto podia ser caracterizado como um grupo de interesses, em razão da existência de preocupações que eram comuns a seus intelectuais: uma das preocupações residia em formular um projeto de desenvolvimento para o Brasil. O conceito de grupo de interesse é justamente explicado como um grupo que se forma, organiza e passa a atuar, como pressão sobre centros de poder, influenciando de modo a alcançar seus objetivos.

“Os procedimentos que predominaram em sua ação, nos primeiros anos, foram a argumentação e a persuasão, através de cursos, conferências e estudos sobre os problemas do desenvolvimento brasileiro, com a indicação de soluções para esses problemas.”[10]

 

A autora ressalta que justamente a partir do momento em que os cursos não eram mais eficazes na difusão da ideologia do nacional-desenvolvimentismo, o ISEB buscou
outra forma de atuação, aliando-se a outros grupos situados nas franjas do poder – embora não menos atuantes. Percebe-se então a aproximação do ISEB com a Frente
Parlamentar Nacionalista (FPN), a União Nacional dos Estudantes (UNE) sindicatos e
até mesmo a proximidade do instituto com o PCB. Esses grupos viam então na pressão uma forma mais eficaz de reivindicação. Com a adesão do ISEB a esses grupos de pressão, o instituto se distanciou de seus objetivos iniciais, como por exemplo, ser um centro de estudos. Neste momento, a única forma de se alcançar o desenvolvimento era identificado com a forma de se pressionar os ocupantes do poder, para as mudanças necessárias à sociedade.

 Através da análise dos livros e dos estudos publicados pelo instituto, a autora identifica a diversidade, principalmente no que se refere à questão da discussão sobre o subdesenvolvimento no Brasil. A autora destaca alguns temas que perfaziam as discussões mais polêmicas dentro do instituto, tais como desenvolvimento, nacionalismo, capital estrangeiro, estatismo/privatismo, entre outros, sempre contrapondo opiniões divergentes dos intelectuais do instituto. O próprio conceito de desenvolvimento possuía múltiplas interpretações na visão dos intelectuais do instituto: se Vieira Pinto entendia desenvolvimento como implicador de uma consciência social, essencial ao esforço para se formular um projeto de desenvolvimento, em oposição, Roberto Campos via desenvolvimento sob o prisma estritamente econômico, meramente como uma questão de acumulação de capital. Quanto ao nacionalismo, outro tema
bastante recorrente, se Guerreiro Ramos o entendia como a luta dos povos periféricos que visavam alcançar a plena soberania, libertando-se da condição
colonizadora, para Hélio Jaguaribe o nacionalismo seria um meio para atingir o desenvolvimento, sendo este não decorrente da vontade das pessoas, mas inerente ao processo de transformação da sociedade.

A contraposição de opiniões entre os intelectuais do ISEB que a autora realça em seu artigo é, portanto, fator importante para confirmar a idéia de diversidade dentro do instituto. A escolha de temas-chave possibilita entender de forma clara e objetiva as distintas matizes de pensamento. E mais: permite analisar o ISEB não como uma
instituição singular e fechada, privilegiando um pensamento padrão, mas sim dotado de uma pluralidade de idéias.

Essa diversidade de pensamentos entre os intelectuais do ISEB tornou-se mais explícita com a publicação do livro O nacionalismo na atualidade brasileira[11], de Hélio Jaguaribe, sendo apenas mais um capítulo para os conflitos teórico-metodológicos que já se acentuavam dentro do instituto, principalmente nas orientações que ganhavam cada vez mais força, como por exemplo, de tornar o instituto menos acadêmico e mais engajado na política. O embate entre aqueles que defendiam o “espírito problemático e científico”, contra a idéia da “mobilização da massa” foi, para Alzira Alves de Abreu, o fator preponderante que culminou na cisão interna no instituto em fins de 1958 e que de fato, contribuiu para o surgimento de uma nova etapa no ISEB. A cisão correspondeu, na visão da autora, a um momento de inflexão na definição dada ao instituto, quando seus integrantes perceberam que as possibilidades de influência da ideologia do nacional-desenvolvimentismo sobre o centro de poder já não tinham mais chances de serem bem-sucedidas. O resultado disso foi então o realinhamento das atividades com vistas às novas zonas de influência dentro de estruturas partidárias e formação de alianças com entidades civis, como a Frente Parlamentar Nacionalista, a UNE, sindicatos trabalhistas e militares nacionalistas. O foco então passava a ser a mobilização da opinião pública em favor das atividades e idéias disseminadas pelo ISEB.

A nova etapa do ISEB, politizada e mais próxima da sociedade civil, tendo ainda a participação de militares de baixo escalão, enfrentou forte campanha de jornais e revistas, identificados como oposicionistas a um nacionalismo que mais se parecia, no entender desses veículos, como subversão. E o mais grave: vindo de uma instituição mantida com verbas do governo.

É importante ressaltar que Alzira Alves de Abreu também identifica o ISEB como tendo passado por “fases” distintas, assim como outros autores. Logo após a cisão, o instituto teve sua nova etapa e em 1961, quando Roland Corbisier já não era mais diretor do instituto, tendo sido eleito para o cargo de deputado federal pela Guanabara, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o governo Jânio Quadros
vivenciando uma crise, precedida por sua renúncia, se inicia enfim, a terceira etapa do ISEB, cujos cursos deram maior ênfase ao tema das “reformas de base”. Temas sobre o terceiro-mundo também foram alçados aos cursos e debates promovidos pelo instituto.

Alzira Alves de Abreu destaca que após a Segunda Guerra Mundial, com a aceleração do processo de industrialização nacional, com o surgimento do Estado como árbitro da economia, ascenderam no cenário novas categorias de profissionais que iriam atuar na administração do Estado: economistas, sociólogos e técnicos em administração, cuja especialização passava ao largo da formação humanístico-jurídica. Surgia então, a figura do Assessor Técnico na reorganização do aparelho estatal brasileiro. Acompanhando essa dinamização, foi notado o surgimento de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), fundada na década de 1930, com a proposta de formar a futura elite dirigente do Brasil, entre as quais se destaca o surgimento de notável grupo de cientistas sociais. A Fundação Getulio Vargas (FGV) também é citada como exemplo de instituição criada no sentido de modernizar e formar novos quadros técnicos, que contribuiriam nos estudos e análises nas áreas econômicas e administrativas, de forma a atender à rápida demanda que o processo de industrialização apresentava. O surgimento da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU) também contribuiu para o incremento na ajuda às assessorias técnicas dos governos – onde Celso Furtado foi, por exemplo, um técnico formado na própria CEPAL.

            O ISEB não estava inserido, na visão da autora, nessa nova tecnocracia que estava surgindo. Os intelectuais do instituto tinham formação humanístico-jurídica, longe de dominarem o “saber técnico” exigido pela demanda do processo de desenvolvimento. A autora relaciona o insucesso do ISEB frente às mudanças que ocorreram na escala de competências num momento de industrialização acelerada, entendendo que embora este tenha sido um dos aspectos do problema, é deficiente a explicação de que tenha sido o principal motivo da não aceitação do projeto de desenvolvimento de tipo nacionalista do instituto pelos centros de poder. Identificado como um instituto que possuía intelectuais de transição, para a autora o ISEB não esteve no timing certo da época. Tanto a época em que se encontrava o desenvolvimento industrial brasileiro, como a fase em que o ISEB formulou seu projeto de desenvolvimento nacionalista não estiveram ajustadas. Desse modo,

“enquanto os intelectuais do ISEB formulavam um projeto baseado essencialmente na preeminência e no controle, por parte dos nacionais, do processo de desenvolvimento, o grupo de tecnocratas que assessorava Juscelino Kubitschek formulava um projeto desenvolvimentista baseado na cooperação internacional – o que significou o deslocamento do controle das decisões fundamentais para os grupos sociais identificados com o capitalismo internacional”[12].

            A política econômica de JK não era nacionalista, e sim desenvolvimentista. Ocorria então uma séria divergência aí. A autora confirma esse confronto justamente com a cisão interna ocorrida no instituto: o embate interno entre seus intelectuais ocorrera justamente porque existia a tentativa de ajustar a política desenvolvimentista de Juscelino à ideologia nacionalista predominante no ISEB. No fim das contas, venceu o projeto nacionalista e quem era favorável ao ajustamento do nacionalismo ao desenvolvimentismo, saiu do instituto. O raciocínio, embora possa parecer complexo, é simples: os nacionalistas do ISEB buscavam o desenvolvimento dirigido pela burguesia industrial. E a burguesia industrial acabara por tecer alianças com capitais estrangeiros – justamente o que os intelectuais do ISEB, em sua maioria, renegavam.

            A autora ressalta que tanto os militares da Escola Superior de Guerra, como os
intelectuais componentes do ISEB, tinham em comum a idéia de que era necessário acelerar o desenvolvimento econômico, sendo todos integrantes do pensamento desenvolvimentista. Justamente num momento posterior, onde ocorre a clivagem entre desenvolvimentistas e nacionalistas, é que se iniciam as divergências entre ambas as instituições, chegando os militares a reprovarem as atividades do ISEB.

            Alzira Alves de Abreu destaca ainda que o ISEB trouxe uma novidade em seus cursos: se até então o modelo de estudos universitários era baseado apenas na referência histórica, sem recorrer ao presente ou ao passado contemporâneo, o ISEB inseriu a análise teórica das ciências sociais seguido de um diagnóstico dos problemas nacionais
e o indicativo de uma solução para os problemas apresentados, sempre orientado para a o desenvolvimento do Brasil.

            Alzira Alves de Abreu assinala as agudas divergências surgidas entre grupos de ciências sociais, especialmente representados pela USP, e os intelectuais do ISEB,
citando principalmente a crítica feita por Florestan Fernandes ao livro A redução sociológica, de Guerreiro Ramos, onde o autor da USP critica o padrão científico utilizado por Guerreiro Ramos, “que não correspondia às exigências científicas da Sociologia”.[13]

O filósofo Caio Navarro de Toledo, em ISEB: fábrica de ideologias[14] ressalta a necessidade de se situar o pensamento de seus intelectuais dentro do contexto histórico e social no qual foi produzido. Primeira análise sobre a produção intelectual realizada pelo instituto, o livro reproduz sua tese de doutorado – Ideologia do desenvolvimento: análise de uma instituição[15] -, apresentada em 1974 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (SP). O autor procura destacar a produção intelectual do instituto, embora não descarte a relevância do contexto quando procura situar as abordagens do material ideológico produzido pelos “isebianos” no quadro econômico, político e social brasileiro.

Nesta obra, Caio Navarro de Toledo procura concentrar sua análise nas obras dos intelectuais do ISEB, mais precisamente aqueles considerados “históricos”. O autor exemplifica as variantes e pressupostos das ideologias elaboradas pelos intelectuais, contrapondo também com seus equívocos e contradições. O autor não buscou analisar e refletir sobre o papel do instituto no contexto histórico e político da época.

No artigo, “Intelectuais do ISEB, Esquerda e Marxismo”[16], Caio Navarro de
Toledo retoma essa questão ao busca entender como as obras de importantes intelectuais
do ISEB estiveram vinculadas ao campo do marxismo e à política de esquerdas na conjuntura política e intelectual das décadas de 1950 e 1960 no Brasil. A proposta de Caio Navarro era justamente ressaltar a pluralidade e heterogeneidade do ISEB, inclusive inserindo na discussão o confronto dos intelectuais do ISEB com o Partido
Comunista Brasileiro (PCB), que sempre reivindicou para si o contato mais aproximado
com o marxismo e sua “revolução social”. O artigo se propõe a discutir como alguns dos mais destacados intelectuais do ISEB utilizaram conceitos e categorias do
marxismo, bem como seus pontos-de-vista acerca da ideologia e política do PCB entre 1950 e 1960.

Em 2005, Caio Navarro de Toledo organizou uma coletânea especificamente
sobre o ISEB. O livro Intelectuais e política no Brasil. A experiência do ISEB[17] veio
oportunamente passar a limpo toda a trajetória deste instituto. A importância da
publicação é acentuada por contar, tanto com alguns dos próprios ex-integrantes do ISEB, como Hélio Jaguaribe, Cândido Mendes, Nelson Werneck Sodré, Joel Rufino dos Santos (um dos estagiários de Nelson Werneck na fase derradeira do instituto) e Jorge Miglioli, assim como também por estudiosos e pesquisadores universitários sobre o tema, como Alzira Alves de Abreu, Alexsandro Eugenio Pereira, Edison Bariani Jr., Gerard Lebrun e Luiz Carlos Bresser-Pereira. O livro sintetiza não somente a história do ISEB, como também analisa aspectos teóricos-metodológicos do instituto, discutindo seu lugar, significado e relevância no cenário político, social e cultural do Brasil das décadas de 1950 e 1960. A publicação é dividida em duas partes: na primeira, a visão dos “ex-isebianos” e na segunda, os intérpretes da obra “isebiana”.

O ISEB foi um dos centros fundamentais para elaboração de uma ideologia nacional-desenvolvimentista, sendo que seus intelectuais eram responsáveis pela formulação de políticas visando o desenvolvimento brasileiro. Com isso, o ISEB, inicialmente apoiado e prestigiado por grupos interessados no desenvolvimento do processo de industrialização, tentou influenciar diversos centros de decisão política, sempre na orientação de promover o desenvolvimento nacional. Se nos primórdios do instituto a orientação era de promover isso com base na argumentação e persuasão, onde os principais instrumentos foram os cursos, palestras, conferências e estudos dirigidos
sobre a problemática do desenvolvimento do Brasil, posteriormente o modelo operacional enviesou-se para que o instituto se aliasse a grupos que se encontravam na periferia dos centros de poder. A autora utiliza, entretanto, a afirmação de que essa mudança de orientação da práxis do ISEB ocorreu mais porque os primeiros procedimentos mostraram-se “inoperantes”.

Na mesma coletânea organizada por Caio Navarro de Toledo, no artigo “Intelectuais, política e cultura na formação do ISEB”[18], Alexsandro Eugênio Pereira tem o propósito de ressaltar que antes mesmo da criação do instituto, alguns de seus idealizadores foram capazes de mobilizar condições políticas favoráveis à instituição do ISEB. Por outro lado, numa posição divergente ao estudo apresentado por Maria Victoria Benevides[19], o autor ressalta que muito do sucesso no empreendimento do ISEB se deve ao fato de que este estava sintonizado com os projetos do futuro presidente, Juscelino Kubitschek – Benevides apenas ressalta que o ISEB não tinha proximidade com JK, sendo apenas considerado uma assessoria política do presidente – sem de fato ser na prática.

A principal argumentação que Alexsandro Pereira faz relaciona-se com a tese de doutorado de Alzira Alves de Abreu - Nationalisme et action politique au Brésil: une etude sur l´ISEB[20]. Na tese, a autora utiliza o conceito de grupo de interesse, que seria
adequado ao ISEB. No entanto, enxergaria o insucesso do instituto como grupo de
interesse tendo em vista seu momento histórico de atuação, principalmente pelo fato do ISEB surgir num momento em que havia a necessidade premente para alcançar o desenvolvimento industrial. Sendo intelectuais “de transição”, sem o saber técnico, os integrantes do ISEB seriam apenas teóricos, sabedores das transformações sociais que o país passava, mas desprovidos daquilo que seria uma das molas propulsoras do governo
JK: o saber técnico em prol do desenvolvimentismo. Com isso, o ISEB veria sua
determinação de atuação como centro de decisão esvaziada por outras instituições que privilegiavam o saber técnico, como por exemplo, a Fundação Getulio Vargas. Alexsandro Pereira, ao contrário, vê as condições históricas não como inimigas, mas como aliadas do ISEB, já que o instituto situava-se numa posição onde pôde desenvolver uma autonomia de produção intelectual, dada sua proximidade com centros de poder.

O autor se utiliza de Norberto Bobbio[21] como referencial para analisar a relação entre os intelectuais e o poder político. O habitat natural para os intelectuais seria o mundo da cultura, descolado do mundo da política. A partir do momento em que os intelectuais passam a deter o poder, precisariam entender, portanto, que a lógica passa a ser outra, condicionada por diferentes fatores – sociais, econômicos e políticos. O autor recorre então a Bobbio, quando diz que “o aumento dos meios através dos quais o poder ideológico se manifesta e se expande, amplia a importância dos intelectuais na sociedade”.

O trabalho de Alexsandro Pereira procura fugir de abordagens tradicionais acerca do significado da ação e da produção intelectual do ISEB. Segundo ele, os intelectuais do instituto dialogaram com a cultura e a política. O autor procura
exemplificar como os “isebianos” articulam política e cultura no processo de formação da instituição. Segundo ele, a análise da produção intelectual está sistematicamente relacionada ao contexto político do tempo em questão – os anos 1950. Atendiam os interesses políticos de JK. Se em sua gênese os intelectuais estão inseridos no âmbito estritamente cultural, a partir do momento em que são convocados a participar do
processo decisório, eis então que encontram-se neste segundo momento situados no
campo da política também.

Alexsandro Pereira cita os exemplos de Hélio Jaguaribe, Rômulo Almeida e Ignácio Rangel que, em sua opinião, ao possuírem um “saber técnico”, fossem inseridos em projetos colaboracionistas para com o aparelho estatal, distinguindo-se então, do modelo de intelectual ideológico. Para ele, o grupo de intelectuais do ISEB estabeleceu uma relação peculiar entre cultura e política, em muito favorecida pela conjuntura do tempo histórico em questão.

Caio Navarro de Toledo também contribui com novos elementos em seu artigo “ISEB: ideologia e política na conjuntura do golpe de 1964”[22], principalmente quando chama a atenção para o fato de que faltam trabalhos que analisem, com mais profundidade, o que ficou conhecido como “último ISEB”, que é justamente um dos propósitos desta dissertação. O autor discorda das posições de Hélio Jaguaribe, Nelson Werneck Sodré e Guerreiro Ramos, feitas anos depois, que criticaram e até certo ponto subestimaram o envolvimento do instituto na conjuntura social que antecedeu o golpe civil-militar de 1964. Se por um lado, de fato, o número de artigos e publicações neste período decresceu, em comparação com o período imediatamente anterior (1955-1961), por outro lado Caio Navarro de Toledo destaca que o instituto teve significativa atuação no debate intelectual e político do efervescente período pré-1964. Se o ISEB esteve inserido no âmbito do conjunto de esquerdas que foram derrotadas com o golpe, por outro lado o autor destaca a importância que o instituto desempenhou, como importante referência intelectual. Para reforçar tal fundamento, Caio Navarro de Toledo ressalta que outra importante instituição na época, a USP, instituição que se notabilizou por integrar uma esquerda progressista e também de não economizar críticas à falta de rigor científico ao ISEB, principalmente no campo das ciências sociais, foi uma instituição que teve apenas uma discreta participação no debate político e ideológico que atravessou a metade da década de 1950 até o golpe de 1964.

            Caio Navarro de Toledo acrescenta neste artigo que discorda também, em
referência à obra A verdade sobre o ISEB[23], de Nelson Werneck Sodré, que não existiu “uma verdade” sobre o ISEB, tampouco existiu um “autêntico” ISEB. Segundo ele, os três intelectuais mencionados, ao definirem o ISEB como tendo fases distintas, acaba por relacionar a estas adjetivos de forma inconsciente. Assim, por exemplo, se Hélio Jaguaribe associa sua saída do instituto como sendo, a partir daí, uma fase mais militante, erra, segundo Caio Navarro de Toledo, pois insere o instituto num contexto
reducionista e não o vê como um todo, ou seja, desqualifica justamente a heterogeneidade de idéias inseridas na instituição. Como se a partir de 1959 e
principalmente depois de 1961, o ISEB tivesse entrado numa etapa “degradada” ao assumir para si o engajamento político mais acirrado em face ao novo momento em que o país vivia. Na visão do autor, se o instituto assumiu uma posição mais combativa, principalmente no período que antecedeu 1964, isso foi decorrência natural das lutas internas que sempre existiram no ISEB.

            Caio Navarro de Toledo complementa seu raciocínio indo na contramão da maioria dos trabalhos sobre o instituto, que simplesmente ao criarem “etapas” para o ISEB, as vêem como fases isoladas, uma sobrepondo à outra, como por exemplo a afirmação de que a terceira fase do instituto era totalmente contrária ao “primeiro ISEB”. Em oposição a isso, o autor vê complementaridade entre as fases vividas pelo instituto, uma continuidade político-ideológica entre elas. Portanto, evidenciamos neste raciocínio que o autor vê um aperfeiçoamento ocorrido entre as três etapas.

Neste artigo, Caio Navarro de Toledo busca fazer o resgate daquela que foi uma das principais críticas à sua obra ISEB: fábrica de ideologias: procurou ressaltar a atuação política progressista e democrática desenvolvida pelo instituto no cerne da sociedade brasileira do início da década de 1960. Caio Navarro de Toledo destaca assim, que a contextualização histórica e política do ISEB seja levada em conta, com base numa avaliação que contenha critérios sobre o que representou o instituto no interior da formação cultural do país, principalmente entre os anos 1950 e 1960.

Maria Victoria Benevides, em sua obra O Governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política[24], entende o ISEB como tendo sido encampado pelo governo JK, intencionalmente com o propósito de ser um órgão de assessoria, apoio e sustentação à política econômica desenvolvimentista. A autora assinala ainda que o instituto tenha constituído um recurso utilizado pelo Poder Executivo de forma
inteligente, como propaganda visando o fortalecimento do Estado. Maria Victoria Benevides ressalta que os intelectuais do ISEB eram vistos como assessores políticos de Juscelino, ainda que na prática não fossem – já que integrantes do Partido Social Democrata (PSD) desempenhavam esta função.

Maria Victoria Benevides destaca que o ISEB teve ênfase estatista em suas diversas variantes de concepção nacionalista. Interessante perceber que a autora utiliza os termos “moderados” e “radicais” para assinalar os grupos no debate sobre a entrada de capitais estrangeiros no país. Ela ressalta que se por um lado o ISEB não patrocinou a ideologia desenvolvimentista como um todo, por outro nunca deixou de admitir a importância do desenvolvimento capitalista como alternativa viável para a superação do subdesenvolvimento brasileiro. Esta idéia também está implícita em “Ideologia do desenvolvimento – análise de uma instituição”, tese de doutorado de Caio Navarro de Toledo, em 1973.

O sociólogo Daniel Pécaut, em sua obra Intelectuais e a política no Brasil: entre o povo e a nação[25], no que se refere à geração de 1954-1964, procura fazer uma análise das distintas orientações intelectuais que marcaram essa época, analisando algumas instituições, entre elas, o ISEB. Segundo ele, muitas pesquisas foram realizadas sobre as instituições na década de 1950, entretanto sempre restrita ao campo da história das idéias, sem ir mais a fundo, de fato, na influência que essas instituições tiveram face aos acontecimentos que ocorriam. Os intelectuais dessa década – e aí o autor inclui o
exemplo do ISEB – visavam promover uma revolução, com base numa ideologia, onde tanto o desenvolvimento econômico, como a emancipação das classes populares e a independência nacional estariam inseridos no mesmo projeto. E justamente no que Pécaut chama de segunda fase do instituto, é que seus intelectuais querem participar da revolução nacional brasileira. Interpreta que por isso, o intelectual estava muito próximo da intelectualidade russa, já que buscava na ideologia uma forma de se manifestar, desvinculando-se das relações concretas de classe, estabelecendo-se à frente do povo, através do pensamento[26]. Mas não entrando na classe que pretendiam servir, mas por
meio dessa idéia de classe. Para ele, povo e nação estavam unidos, caminhavam juntos intrinsecamente: o povo era a garantia de unidade nacional, cabendo ao intelectual ser o intérprete, porta-voz das massas populares. O país caminhava para se tornar uma sociedade democrático-burguesa, resultado do acelerado processo de desenvolvimento econômico. Mas ressalta uma característica importante desde intelectual: ele se tornaria um ser político, ajudando o povo a ter a tomada de consciência da realidade que o cerca. O autor faz a separação do instituto em fases vivenciadas e no que denomina de terceira fase, atribui-lhe o nome de “último ISEB radical-populista”, tendo em vista que muitos de seus professores naquele momento pertenciam ao PCB. As distintas fases do instituto relacionam-se às mutações políticas as quais o ISEB passou, e também às representações políticas que pretendeu impor. Começou nacional-desenvolvimentista, passou a nacional-populista e terminou sendo nacional-marxista.

No artigo “O ISEB por ele mesmo: práticas institucionais e modelos ideológicos”, João Alberto da Costa Pinto[27] se propõe a analisar as atividades desenvolvidas no ISEB, utilizando-se de fontes primárias (revistas e relatórios impressos, entre outros) e também os distintos modelos ideológicos de alguns intelectuais do instituto, justificando o que podemos entender como o ISEB “por ele mesmo”. Ele busca tecer uma caracterização do instituto de forma descritiva, já que reconhece que os diversos estudos sobre o ISEB até então estiveram preocupados em analisar a instituição apenas no campo das idéias e de suas contribuições através dos trabalhos de seus intelectuais.

João Alberto da Costa Pinto utiliza uma reportagem da revista Manchete[28], descrevendo as dependências físicas do instituto e caracterizando alguns aspectos políticos da ação institucional dos intelectuais pertencentes ao quadro docente do ISEB, no seu entender, como sendo uma descrição depreciativa, atendendo princípios ideológicos contrários ao instituto. O próprio título da reportagem (“O mistério da nonamansão”)[29], com a foto de Alberto Guerreiro Ramos ao lado, numa janela, conversando ao telefone, o autor faz questão de ressaltar como sendo de tom conspirativo.

Além da descrição do espaço físico do ISEB, a reportagem divide-se em duas partes: na primeira, traz uma listagem onde são expostas algumas críticas feitas aos trabalhos da instituição; e na segunda parte, são expostas razões de defesa do instituto. A reportagem utiliza-se de tom acusatório aos intelectuais do ISEB, marcadamente inserida no anticomunismo predominante da época, sendo o instituto concebido como uma “elite” afastada das massas, um “órgão de cúpula” desimportante. Para isso, a revista Manchete faz uso da revista Cadernos do Nosso Tempo, que era publicada no ano de 1954, pelo então Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP), especialmente de um trecho onde os intelectuais da instituição “confessavam” que tinham um “plano de infiltração lenta e progressiva na administração pública, até controlar os pontos-chave”, visando “transformar o país”. A principal acusação da Manchete aos intelectuais do ISEB era a de que seu corpo docente era especializado em preparar ideologias para o governo e também fórmulas jurídicas visando golpes de Estado.

O autor recorre a Nelson Werneck Sodré que, em A verdade sobre o
ISEB
31, também cita a revista Manchete – uma das publicações mais atuantes no “cenário conspirativo anti-isebiano”, sendo parte da “ofensiva reacionária” contra o instituto.

É bom lembrar que a reportagem da revista Manchete foi publicada antes de
ocorrer a cisão interna no ISEB entre alguns de seus intelectuais. Com a mudança no estatuto do instituto, dando mais autonomia política e pedagógica ao instituto, João Alberto da Costa Pinto reforça a idéia de que o ISEB deu uma guinada para a esquerda, enfatizando os propósitos nacionalistas da revolução burguesa no país. Para o autor, a partir de 1959, com a reformulação estatuária, o ISEB viveria seu “segundo momento”. E que novamente mudará em 1963, quando ocorre uma radicalização da revolução
brasileira rumo ao socialismo, com “práticas esquerdistas” – expressão emprestada de Nelson Werneck Sodré.

Por outro lado, João Alberto da Costa Pinto recorre à documentação do próprio ISEB, que descreve de modo mais detalhado as atividades desenvolvidas pelo instituto,
com base em relatórios. O principal é o Relatório Sucinto das Atividades do Instituto Superior de Estudos Brasileiros[30] – entre os anos de 1960 a 1965 -, na visão do autor, provavelmente elaborado por Roland Corbisier – diretor do ISEB. Nas 65 páginas deste relatório, o autor apresenta dados estatísticos sobre as atividades desenvolvidas no instituto no período exposto.

O autor conclui que o ISEB altera suas práticas institucionais a partir de 1959, expandindo-se de sua sede e dirigindo-se à sociedade civil. Outra conclusão relaciona-se com o corpo discente do instituto, que segundo João Alberto da Costa Pinto, é oriundo, em sua maioria da sociedade civil, apesar de também constarem burocratas em seus quadros. Chama a atenção também para o vínculo com instituições como sindicatos trabalhistas, entidades patronais e de representação estudantil, como a UNE, por exemplo, estando a política feita pelo ISEB inserida num amplo debate envolvendo a sociedade civil. Inclusive o autor perfaz uma crítica a Caio Navarro de Toledo, quando este cita o ISEB como uma “fábrica de ideologias”: segundo João Alberto da Costa Pinto, a expressão minimiza a capacidade de articulação do instituto com a sociedade civil, com suas práticas institucionais, como sendo meramente difusora de idéias.

Outro documento utilizado pelo autor é o Relatório EMFA/ISEB[31], de investigação sigilosa sobre as atividades do ISEB, assinado pelo general Edgar Amaral, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e dirigido ao presidente da República, Juscelino Kubitschek. João Alberto da Costa Pinto ressalta que a maior crítica dos
militares ao ISEB estava relacionada ao fato dos cursos serem dirigidos a oficiais não pertencentes ao alto escalão das Forças Armadas, e a prática do ISEB direcionar cursos
a estes oficiais não era responsabilidade do instituto, sendo considerada então, uma forma de infiltração comunista, visando meramente a aliciar oficiais para doutrinar contrárias ao progresso do país.

Em complemento à análise institucional do ISEB, o autor dedica outra parte de
seu artigo apresentando o que chama de “vértices teóricos”, desenvolvidos nos debates intelectuais internos. Para isso, ele elabora uma periodização do instituto, que se divide em três fases ideológicas, sendo Helio Jaguaribe o intelectual síntese da primeira fase do instituto, Nelson Werneck Sodré representando a segunda fase e por fim, Wanderley Guilherme dos Santos – auxiliar de Álvaro Vieira Pinto - como expressão maior da terceira e derradeira fase do ISEB. João Alberto da Costa Pinto ressalta que embora cada intelectual dispusesse de relativa autonomia diante das disciplinas que lecionava, era visível a existência de três “visões de mundo”, que originariam distintos paradigmas de revolução brasileira. Com base nessa periodização representando os momentos distintos do ISEB, João Alberto da Costa Pinto aponta a obra O nacionalismo na atualidade brasileira[32], de 1958, como síntese do pensamento de Helio Jaguaribe e consequentemente da visão de mundo do instituto. Já Nelson Werneck Sodré é lembrado com sua obra Formação Histórica do Brasil, de 1962. Por fim, a fase
 “esquerdista” do instituto é ressaltada principalmente através do livro “Reforma contra reforma”, publicado em 1963 por Wanderley Guilherme dos Santos. Esta obra que por sinal representou, segundo o autor, a virada, de fato, das posições do ISEB: foi um ataque direto ao “primeiro ISEB”, com suas premissas teóricas inaugurais.


[1] IRINELLI, Jean-François. “Os intelectuais” In: RÉMOND, René (Org) Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p. 231.

[2] Idem, p. 233.

[3] Idem

[4] Entrevista de Roland Corbisier a Carlos Augusto da Rocha Freire. Rio de Janeiro: Museu do Índio. 1987. 1 CD (faixa 1: 33 min. 18 seg.; faixa 2: 6 min).

[5] ABREU, Alzira Alves de. Nationalisme et action politique au Brésil: une etude sur l´ISEB. Tese (Doutorado) - Université René Descartes, Paris, 1975, mimeo.

[6] ABREU, Alzira Alves de. “O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)” IN: FERREIRA, Jorge; FILHO, Daniel Aarão Reis. As Esquerdas no Brasil. Nacionalismo e Reformismo Radical. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 419.

[7] Idem

[8] Idem

[9]Entrevista de Alzira Alves de Abreu a Fabrício Augusto Souza Gomes. Rio de Janeiro, 27/08/2010.

[10] A de. Intelectuais e política no Brasil: BREU, Alzira Alves de. “A ação política dos intelectuais do ISEB” In: TOLEDO, Caio Navarro a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 98

[11] JAGUARIBE, Hélio. O nacionalismo na atualidade brasileira. Rio de Janeiro: ISEB, 1958.

[12] ABREU, Alzira Alves de. “A ação política dos intelectuais do ISEB” In: TOLEDO, Caio Navarro de. Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 104-105.

[13] Idem

[14] TOLEDO, Caio Navarro de. ISEB: Fábrica de Ideologias. Campinas: Editora da Unicamp, 1997

[15]TOLEDO, Caio Navarro. Ideologia do desenvolvimento: análise de uma instituição. Tese (doutorado). São Paulo, 1974.

 

[16] TOLEDO, Caio Navarro de. “Intelectuais do ISEB, Esquerda e Marxismo”. IN: MORAES, João Quartim de (org). História do Marxismo no Brasil. v.III. Campinas, Unicamp, 1998.

[17]TOLEDO, Caio Navarro de (Org). Intelectuais e Política no Brasil. A experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.

[18] PEREIRA, Alexsandro Eugênio. “Intelectuais, política e cultura na formação do ISEB” IN: TOLEDO, Caio Navarro de. Intelectuais e Política no Brasil. A experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.

[19] BENEVIDES, Maria Victoria. O Governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. 1956-1961. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

[20] ABREU, Alzira Alves de. Nationalisme et action politique au Brésil: une etude sur l´ISEB. Tese (Doutorado) - Université René Descartes, Paris, 1975, mimeo.

[21]BOBBIO, Norbeto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: UNESP, 1997.

[22] TOLEDO, Caio Navarro de. “ISEB: ideologia e política na conjuntura do golpe de 1964” IN: TOLEDO, Caio Navarro de. Intelectuais e Política no Brasil. A experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.

[23] SODRÉ, Nelson Werneck. A verdade sobre o ISEB. Rio de Janeiro: Avenir, 1978.

[24] BENEVIDES, Maria Victoria. O Governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. 1956-1961. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

[25]PÉCAUT, Daniel. Os intelectuais e a política no Brasil: entre o povo e a nação. Rio de Janeiro: Ática: 1990

[26]Idem. pp. 104

[27]PINTO, João Alberto da Costa. “O ISEB por ele mesmo: práticas institucionais e modelos ideológicos” In: MENDONÇA, Sonia Regina de (Org). Estado e Historiografia no Brasil. Niterói: EdUFF, 2006.

[28] Revista Manchete, n. 335, Rio de Janeiro, 20/09/1958 – reportagem de Adilson Barros: “O mistério da nona mansão”. (pp. 72-76)

[29] Idem.

[30]Relatório sucinto das atividades do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) durante o período de janeiro de 1956 a novembro de 1960. Biblioteca Nacional – Seção de Manuscritos / Arquivo INL. AR 44, 30, 49.

[31] Exposição de motivos n. 003 – B, de dezembro de 1959 (General Edgar Amaral – Comandante do EMFA) – Arquivo Nelson de Melo / CPDOC / FGV-RJ

[32]JAGUARIBE, Helio. O nacionalismo na atualidade brasileira. Rio de Janeiro: ISEB, 1958.



 

 

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